O historiador João de Castro Nunes vai defender, na quinta-feira, em Coimbra, uma nova interpretação dos painéis de S. Vicente, questionando o que já foi dito e as polémicas à volta deste conjunto pictórico do século XV.

O professor universitário identificou esta terça-feira os seis quadros articulados, da autoria do pintor Nuno Gonçalves, com a intenção do rei D. Afonso V de se reconciliar com “alguns dos seus vassalos da mais alta estirpe” derrotados na batalha de Alfarrobeira, em 1449.

Descobertos em 1882, no Paço Patriarcal de S. Vicente de Fora, em Lisboa, os painéis “fazem parte da preocupação de o monarca passar uma esponja sobre a tragédia que dividiu a sociedade portuguesa em Alfarrobeira”.

Travada na zona de Alverca, próximo de Lisboa, entre tropas do ex-regente Infante D. Pedro e o jovem rei Afonso V, seu sobrinho e genro, a batalha de Alfarrobeira “obrigou a sair do reino” e a exilarem-se noutros países da Europa importantes membros da nobreza e do clero, sendo alguns “da estima pessoal” do monarca.

D. Pedro, duque de Coimbra, homem culto e viajado, morreu em Alfarrobeira, enquanto seu filho D. Jaime, primo e cunhado do rei, foi preso e acabou por fugir para o estrangeiro, vindo a afirmar-se internacionalmente como cardeal da Igreja de Roma.

Casado com D. Isabel de Portugal, D. Afonso, “O Africano”, precisava de “estabelecer a concórdia” no reino, procurando reabilitar a sua imagem na Europa e permitir o regresso dos apoiantes do tio em Alfarrobeira, dos quais precisava para encetar a expansão no Norte de África.

No painel do Arcebispo, a quarta imagem do retábulo de Nuno Gonçalves, pintado em madeira de carvalho, evidencia-se no pavimento “uma corda enrolada”. Trata-se de “um símbolo falante”, que visa “mostrar que a nobreza e o clero estão de novo unidos”, disse João de Castro Nunes à Lusa, realçando que “este é o painel da concórdia” desejada por D. Afonso V.

Apesar das pressões dos nobres da Casa de Bragança, o monarca “quis perdoar e passar uma esponja” sobre a herança nefasta de Alfarrobeira e melhorar, assim, a imagem negativa que tinha “em muitas cortes da Europa”, satisfazendo também, ainda que a título póstumo, a vontade da sua mulher, filha do Infante D. Pedro.

João de Castro Nunes pretende debater publicamente esta sua interpretação dos painéis, antes da publicação do livro “As tábuas afonsinas da concórdia”. Na sua investigação, o historiador põe “de lado tudo quanto até hoje se disse” sobre a obra de Nuno Gonçalves, com o objetivo de “abrir uma nova frente de discussão” quanto ao seu significado. “O que perde em termos devocionários ou afins, a obra ganha em projeção histórica e relevância cultural”, referiu.

João de Castro Nunes vai defender esta visão dos painéis de S. Vicente num debate promovido pela associação Alternativa, na quinta-feira, às 18H00, na livraria Lápis de Memórias, em Coimbra.

Fonte: http://www.cnoticias.net/?p=96284

Share